domingo, 13 de outubro de 2013

Fraldas para que te quero?

Com o nascimento da minha filha ainda não consegui voltar à rotina de atualizações neste cantinho, mas pretendo fazê-lo em breve.

Por enquanto, acompanhem minhas aventuras no blog Fraldas para que te quero e também curtam o Fraldas no facebook , ok?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O início, o fim e o meio - Parte I

- Acho que está na hora do Maurício “Shogun” Rua se aposentar – disse para a minha esposa logo após ele ter sido finalizado pelo mala do Chael Sonnen no UFC Fight Night 26.

Passava da meia-noite do dia 18 de agosto, desliguei a televisão e já me preparava para ir dormir quando ela começou a se queixar:

- Estou sentindo algumas contrações e está doendo bastante.
- Doendo?
- Sim, doendo.
- Mas, doendo como?
- Como pontadas que estão ficando mais fortes.
- Vamos contar.

Olhei para o relógio e, como todo casal grávido de primeira viagem, mesmo com os olhos quase fechando de sono, imediatamente começamos a contar o intervalo das contrações. E aí as fortes emoções começaram.

- Quatro contrações. Quanto tempo passou? – ela perguntou.
- Dez minutos.
- O médico disse que se forem pelo menos duas num intervalo de dez minutos ao longo de uma hora é hora de ir para o hospital.
- Pois é, vamos continuar contando.

O primeiro calafrio passou pela espinha e aquela sensação congelante de “será?” fez qualquer resquício de sono desaparecer momentaneamente.

- Mais três contrações. Quanto tempo?
- Oito minutos – retruquei.

Olhamos assustados um para o outro.

- Será? – ela perguntou.
- Parece. Vamos contar mais uma vez.
- Acho melhor irmos para o hospital, pois a dor continua.
- Calma, vamos contar mais um período – tentei ponderar. Acho que esta situação está te deixando nervosa. Tente manter a calma.
- Estou calma, mas está doendo.
- Só mais uma contagem.
- Ok, mas vamos para o hospital, pois se não for pelo parto antecipado, é pela dor.
- Sim, vamos manter a calma – repeti.

Respirei fundo e tentei não demonstrar nervosismo, mas a adrenalina já corria solta e sabia que ela tinha razão – era terminar de contar, pegar as malas e partir para a maternidade. Afinal de contas, se há duas coisas que não combinam é mulher grávida com dor e sem assistência médica.

- Mais quatro contrações.
- Dez minutos.
- Vamos?
- Para já!


(continua)

domingo, 11 de agosto de 2013

Rubem Fonseca: Os pensamentos imperfeitos de um selvagem

Por Alvaro Costa e Silva

RESUMO Em 1963, o ex-delegado lançou seu 1º título, o volume de contos "Os Prisioneiros", iniciando uma obra que conquistou leitores e seguidores com seu registro seco da violência. O autor prepara novo livro e perdura como influência na literatura urbana brasileira, apesar das críticas negativas à sua produção recente.
*
"A condessa Bernstroff usava uma boina onde pendurava uma medalha do kaiser. Era uma velha, mas podia dizer que era uma mulher nova e dizia. Dizia: põe a mão no meu peito e vê como é duro. E o peito era duro, mais duro que os das meninas que eu conhecia." Com essas linhas se abre "Fevereiro ou Março", primeiro conto de "Os Prisioneiros", livro inaugural da obra de Rubem Fonseca, que completa 50 anos.

Em outubro de 1963, começava com elas a "literatura brutalista" e o "realismo feroz"que se estenderiam sobre gerações posteriores de influenciados -e de imitadores. "Sabe-se que Rubem Fonseca, ao contrário dos discípulos, não se repetiu por afagos constantes ao vitorioso estilo inicial, tornando-o vicioso e viciado. O ficcionista se distancia dele para se tornar complexo e inimitável", avalia o crítico e escritor Silviano Santiago.

Como um de seus personagens prisioneiros de si mesmos, mas sobretudo da arte de narrar, Rubem Fonseca continuou escrevendo, sem ligar para estragos ou conquistas. Aliás, continua: uma nova coletânea de textos breves, a 14º da carreira, está no forno.

"Amálgama" deve chegar às livrarias entre o fim de agosto e o princípio de setembro. Além dos contos, informa Janaína Senna, da Nova Fronteira, o volume inclui poemas, totalizando 34 textos, que, conforme resume a editora, "tratam de assuntos os mais variados, mais especialmente da própria atividade do escritor, da velhice, de deformidades físicas e de diferenças sociais".

SURPRESA

Ao estrear, o autor desconhecido aprontou mais de uma surpresa. Sua editora, a pequena GRD, do baiano Gumercindo Rocha Dorea, limitara-se, até o início da década de 1960, a promover obras de e sobre Plínio Salgado (líder do movimento integralista).

A publicação de "Os Prisioneiros" -que estampava na capa uma ilustração de Zeca Fonseca, filho do autor, então com seis anos- era parte de uma guinada na linha editorial, que incluía o lançamento de outros livros de ficção (entre eles, os romances "O Valete de Espadas", de Gerardo Melo Mourão, e "Guia Mapa de Gabriel Arcanjo", de Nélida Piñon) e de uma pioneira coleção de ficção científica.

Naquele 1963 outro contista que se tornaria notável, João Antônio, fez também sua estreia, com "Malagueta, Perus e Bacanaço". No romance, "Kaos", de Jorge Mautner, levou o Prêmio Jabuti, e "O Braço Direito", obra-prima de Otto Lara Resende, passou quase despercebida. Na crônica, Sérgio Porto mostrou "A Casa Demolida". No plano internacional, marcou o ano de "Rayuela" ("Jogo da Amarelinha"), romance-desmontável de Julio Cortázar, marco do chamado "boom" latino-americano.

O advogado e ex-delegado de polícia José Rubem Fonseca, mais conhecido pelos amigos que nem sequer o imaginavam escritor como Zé Rubem, foi considerado "a revelação do ano" pelo "Jornal do Brasil", em crítica assinada por Fausto Cunha. Wilson Martins, em sua coluna no suplemento literário de "O Estado de S. Paulo", foi mais longe: saudou-o como renovador do conto brasileiro "no momento mesmo em que estaríamos inclinados a considerá-lo esgotado".

"Os Prisioneiros" já trazia a essência da brutalidade e da ferocidade diagnosticadas mais tarde por dois dos maiores críticos literários do país, Alfredo Bosi e Antonio Candido, respectivamente.

Em "Fevereiro ou Março", um halterofilista vende o próprio sangue; em "Duzentos e Vinte Gramas", a autopsia de uma linda mulher é descrita sem compaixão; em "Teoria do Consumo Conspícuo", um casal de quase amantes discute a necessidade de uma operação plástica de nariz. Tudo narrado em diálogos poderosos, estilo desconcertante, cortes precisos.

NOVIDADE

Em 1963, Rubem Fonseca era, em suma, uma novidade, tanto na temática quanto na técnica -o que em literatura não acontece todos os dias.

"Associo o impacto a dois fatores: a emergência da voz de uma classe social que não costumava falar com voz própria e o surgimento de um novo registro de representação da violência", diz Idelber Avelar, professor de literatura na Universidade de Tulane, nos Estados Unidos. "Os contos de Fonseca trazem a voz de um lumpemproletariado até então desconhecido na literatura brasileira, personagens que não aparecem como meras vítimas silenciosas. Surgem como agentes da ação e portadores de um discurso que escandaliza o leitor de classe média."

Estudioso da obra de Rubem Fonseca desde 1972, Deonísio da Silva considera o escritor uma resposta, urbana e alienígena, a Guimarães Rosa: "Depois de 'Grande Sertão: Veredas' [1956], ficou a pergunta: 'Como se escreveria dali por diante?'. Fonseca chega com outro olhar, outros temas, outros personagens. Nada nele é parecido com os que o antecederam, e ele parece não receber influência de ninguém no Brasil. Sua obra está atrevidamente calcada em modelos literários vindos dos EUA".

Em futuros escritores, a identificação foi imediata. Lilian Fontes, autora de três romances -no mais recente, "De Olhos Bem Abertos" (2011), a narradora cita textualmente o conto "Gazela", de "Os Prisioneiros"-, era uma adolescente de 13 anos quando, em 1972, leu o livro de estreia de Fonseca.

"A narrativa em primeira pessoa, seca, e o uso de termos chulos mostravam um autor que tinha como premissa não poupar o leitor. Aquele livro de poucas páginas me desvendou um mundo."

Fonseca voltaria a semear assombro com uma nova seleção de contos, "A Coleira do Cão", lançada pela GRD em 1965.

A rigor, o primeiro e o segundo livros poderiam fazer parte de um único volume, tal a coesão de abordagens e estilos. "A Força Humana", que abre a coletânea, dá sequência a "Fevereiro ou Março" e foi descrito pelo crítico Wilson Martins, habitualmente avaro em elogios, como não apenas "um dos melhores contos brasileiros até hoje escritos" mas "um dos melhores contos da literatura universal".

Destaca-se ainda o conto-título, no qual um quase lírico delegado de polícia faz uma incursão por uma favela, bem antes de elas se tornarem bocas de tráfico e pontos de visitação turística. Mais pela dicção que pelo cenário, "Madona" é talvez o conto mais carioca do mineiro de Juiz de Fora, chegado ao Rio aos oito anos.

Fato raro (ou eram outros tempos?) que um segundo livro de autor caseiro, e ainda mais de contos, gênero olhado com desconfiança por leitores, editores e críticos, despertasse tal expectativa como a que se ergueu em torno de "A Coleira do Cão", merecendo até nota na coluna social de Ibrahim Sued no "Diário de Notícias". No "Suplemento Literário de Minas Gerais", Assis Brasil, depois de considerar o autor "um dos melhores contistas brasileiros", perguntava-se se ele iria prosseguir no conto ou "sairá para novas pesquisas".

Pode-se dizer que, com "Lúcia McCartney", publicado pela pequena Olivé em 1969, Rubem Fonseca não só continuou preferindo os relatos curtos como também realizou, com eles, pesquisas: "Corrente" conta-se em apenas 14 linhas, e "A Matéria do Sonho", num único parágrafo de quase dez páginas.

A crítica voltou a incensar o trabalho -que escapou de ser batizado com o infeliz, embora analiticamente sugestivo, título de "Ficção e Não" e ganhou o nome de uma personagem prostituta, espécie de Bruna Surfistinha "avant-garde".

Fábio Lucas elaborou uma tabela explicativa: "Atitude do autor: desafio. Arma principal: o impacto. Objetivo: a comunicação. Razão do êxito: o rigor inventivo e a radicalização da experiência. Maior temor: o academismo. Pecado (venial): a repetição". Sérgio Sant'Anna cravou, simplesmente: "É o mais importante livro de ficção brasileira dos últimos anos".

TERREMOTO

"Feliz Ano Novo", foi o primeiro livro de Rubem Fonseca que Tony Bellotto leu. "Eu estava com 14 anos e foi como se um terremoto tivesse atingido a minha casa em Assis", conta o escritor e roqueiro. Ali, na quarta reunião de contos do autor, "estava uma realidade submersa, que não aparecia no meu dia a dia, mas que tinha muito mais a ver com a verdadeira realidade do que tudo que eu via acontecer a meu redor".

O livro, editado em 1975 pela Artenova com despojado projeto gráfico (diagramação de relatório, sem orelhas nem prefácio, capa amadora), marca, para Silviano Santiago, o fim do primeiro dos "grupos harmoniosos e diferenciados" em que o ensaísta divide a obra de Fonseca. "Cada relato curto descarna a cordialidade do brasileiro pela análise do destempero e da violência que cimenta o cotidiano urbano das classes altas, médias e populares", descreve.

"Feliz Ano Novo" traz três das peças curtas mais citadas e estudadas na obra do escritor: o conto-título -em que três párias invadem uma festa de Réveillon numa casa de ricos- e o dístico "Passeio Noturno I e II" -em que um executivo usa o atropelamento de pessoas como exercício de relaxamento.

"Mais que a brutalidade da violência gratuita cometida por um personagem de classe média alta, choca-nos a fato de que o escritor tenha dado voz a esse personagem. A narrativa em primeira pessoa é a chave da perplexidade gerada pelo conto", nota Idelber Avelar. "A violência não aparece inscrita dentro de um projeto emancipatório ou de possibilidade de redenção. Ela está representada na sua mais pura brutalidade, fora de qualquer consideração ética."

Em novembro de 1976, depois de vender 30 mil exemplares, "Feliz Ano Novo" teve publicação e a circulação proibidas pela censura. Exemplares foram recolhidos nas livrarias pela Polícia Federal, sob a alegação "de exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes". Foi liberado em 1989, depois de longa batalha judicial.

Quando o quinto livro de contos, "O Cobrador", deixou a gráfica da Nova Fronteira, em outubro de 1979, esperava-se uma continuação ou elaboração de "Feliz Ano Novo", que, de alguma forma, respondesse à ditadura. Mas ali havia um Rubem Fonseca na muda -ou num "momento de indecisão", segundo Wilson Martins. Ali, fizeram entrada em sua obra as alusões a outros autores e gêneros -"H.M.S. Cormorant em Paranaguá" tem um quê de ensaio- e não por acaso três das histórias são narradas por escritores.

O advento de um novo ciclo criativo se confirmou em 1983, com "A Grande Arte", seu segundo romance - o primeiro, "O Caso Morel, saíra dez anos antes.

Paródia do gênero "hard-boiled", denúncia do capitalismo criminoso, com personagens grotescos e um protagonista charmoso (o advogado/detetive Mandrake, egresso de três contos), o livro fez com que Rubem Fonseca -que já desfrutava de boa recepção crítica no mercado internacional, principalmente de língua espanhola- fincasse os pés de vez na lista dos mais vendidos do Brasil, chegando a superar o aparentemente imbatível Jorge Amado.

"Rubem Fonseca criou uma ficção que se liga ao que Machado de Assis fez no século 19: unir sofisticação e entretenimento", acredita o escritor Flávio Carneiro, cujo romance "O Campeonato" (2002) gira em torno do conto homônimo, exemplar de ficção científica que integra "Feliz Ano Novo". "A diferença é que Fonseca soube se apropriar de um gênero popular, o policial, para fazer uma literatura que reescreve a tradição."

"A linha investigativa foi a forma que ele encontrou para entrar na narrativa longa", acredita Lilian Fontes. "Ele nutriu-se dos ingredientes de um gênero rotulado de subliteratura para introduzir pensamentos sofisticados, citações filosóficas, uma erudição que corre paralela ao enredo."

ROMANCES

Silviano Santiago identifica nos romances -depois de "A Grande Arte", vieram, em sequência, "Bufo & Spallanzani" (1986), "Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos" (1988) e "Agosto" (1990)- um segundo conjunto dentro do corpo da obra. "São fartamente documentados e elaborados. São alegóricos e, contraditoriamente, viscerais. A visão de mundo que projetam vem embebida em carne, suor e sangue", diz o crítico, para quem a etapa finda com "O Selvagem da Ópera" (1994).

"Cito 'A Grande Arte' e 'Agosto' como exemplos de romances em que ele conseguiu manter a tensão e a excelência de seus contos. O homem vence por nocaute, sempre", elogia Tony Bellotto.

Flora Sussekind, que se debruçou algumas vezes como crítica sobre a obra de Fonseca, não enxerga nos seus romances o vigor que encontra em parte dos contos.

"Nas narrativas mais longas, certos truques, certos achados narrativos, certas formas de corte ficavam mais evidentes como técnica. Os textos perdem nitidamente a força: o romance expôs muito a mecânica dele e, a meu ver, ele procurava resolver a dificuldade com o relato mais longo via registro genérico (histórico, policial) ou com soluções narrativas predeterminadas. E isso parece ter ecoado ainda em boa parte da série de sub-Rubem Fonsecas que se multiplicou na ficção brasileira."

Na opinião da pesquisadora, essas dificuldades se reapresentariam posteriormente também nos contos, forma que Fonseca retomaria em "Romance Negro e Outras Histórias" (1992), "O Buraco na Parede" (1995), "Histórias de Amor" (1997), "A Confraria dos Espadas" (1998), "Secreções, Excreções e Desatinos" (2001), "Pequenas Criaturas" (2002), "Ela e Outras Mulheres" (2006).

Na vizinhança dos anos 2000, "A Confraria dos Espadas" é o marco inicial do terceiro conjunto identificado por Silviano Santiago para definir a obra de Fonseca.

Com o volume, inaugura-se uma etapa que dá vez a "escritos que escapam à bitola estreita de gênero (conto e romance)". "São apenas textos. Visam a processar, tanto no sentido informático do verbo quanto no seu sentido jurídico, o senso comum vitorioso e a ditadura dos bons sentimentos comunitários, que passou a moeda política no início deste milênio."

A essa altura, porém, a crítica, com as exceções de praxe, já tinha virado o disco. A produção mais recente foi vista como "vulgar", "imediatista", "banal", "blasé", "autocaricata", "glamourizada". Em resenha na Folha sobre "Secreções, Excreções e Desatinos", Alcir Pécora escreveu que o livro não chegava "a cheirar nem a feder".

Ainda assim, apesar das oscilações e do peso da idade -chegou aos 88 anos em maio-, Fonseca teve também o reconhecimento de dois dos prêmios mais importantes para o mundo ibero-americano: o Camões, para autores em língua portuguesa, e o Juan Rulfo, dado pelo México, ambos em 2003.

Tony Bellotto expõe com veemência a opinião dos que não acreditam que a mágica do escritor possa ter esfriado: "A literatura de Rubem Fonseca continua de pau duro. Só não vê quem não quer. Ou quem tem medo de pau duro."

TROCA

Em 2009, Rubem Fonseca fez uma inesperada troca de editora, deixando a Companhia das Letras, que o publicava desde "Agosto", pela Agir, do Grupo Ediouro (que também detém hoje a Nova Fronteira). Disse-se à época que a negociação, conduzida pela agente literária Lúcia Riff, tinha sido fechada em R$ 1 milhão.

Hipóteses para explicar o episódio pipocaram. Em 18 de março de 2010, reportagem da Folha cravou: a relação de quase 20 anos entre Rubem Fonseca e Luiz Schwarcz, "publisher" da Companhia, avinagrou após a editora recusar o romance "Gonzos e Parafusos", de Paula Parisot, uma das discípulas do escritor. Fonseca negou; Schwarcz não quis comentar.

No mesmo ano chegou às livrarias um novo romance, "O Seminarista", e teve início o relançamento de sua obra completa, com "Os Prisioneiros" e "Lúcia McCartney", em edições coordenadas pelo jornalista Sérgio Augusto, dotadas de posfácios contextualizando os títulos com a fortuna crítica em torno de seu lançamento.

Seguiram-se, também, mais dois inéditos, ambos publicados em 2011, o volume de contos "Axilas e Outras Histórias Indecorosas" e "José", de fundo memorialístico.

As vendas vão bem, obrigado: no caso dos títulos novos, ficaram na casa dos 18 mil exemplares nos três meses iniciais de lançamento, sem contar vendas especiais e adoções. Entre as reedições do catálogo, cada título vende uma média anual de 2.000 exemplares, também sem contar as adoções.

Ex-editor de Rubem Fonseca na Agir, Paulo Roberto Pires defende a vitalidade do autor, tanto o de hoje como o de ontem: "Sinto que falta uma reflexão mais aprofundada sobre um escritor de obra tão extensa e marcante. Houve um tempo em que era moda gostar; mais recentemente, virou moda não gostar. Assim funciona nossa bolsa de valores literários".

"Acontece um fenômeno com grandes autores", afirma Idelber Avelar. "Impõe-se uma determinada leitura, geram-se muitos imitadores, mas a obra renova sua legibilidade com o tempo. Pode acontecer com Rubem Fonseca."

É aguardar "Amálgama" para ver se o velho Fonseca reinventa sua grande arte.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Francês narra as origens do capitalismo na Idade Média

Por Luís Eblak

Defensor da tese segundo a qual a Idade Média durou até o século 18 (e não 15), o historiador francês Jacques Le Goff é conhecido também por dar ao período uma importância que vai além de uma sociedade dominada por clérigos e senhores feudais.

No livro "Para Uma Outra Idade Média - Tempo, Trabalho e Cultura no Ocidente", lançado agora no Brasil, o medievalista de 89 anos narra o que pode ser tratado como as origens do capitalismo, numa época em que o sistema econômico não dava sequer sinais de vida.

Originalmente publicada na França em 1977, a obra é uma coletânea de artigos acadêmicos divididos em quatro partes. Duas delas tratam das concepções de tempo e trabalho na época e como a Igreja Católica precisou adaptar as visões que tinha sobre esses dois conceitos --básicos da sua teologia cristã.

A outra metade do livro aborda os temas cultura erudita e cultura popular e antropologia histórica.

Os estudos sobre o tempo e o trabalho já foram abordados em outras obras. Sobre o primeiro, por exemplo, o próprio Le Goff já abordou o assunto em "A Bolsa e a Vida" (ed. Civilização Brasileira).

'TEMPO SEM PRESSA'

O que se destaca em "Para Uma Outra Idade Média" é a forma como Le Goff descreve para o leitor --leigo, inclusive-- o significado sobre o tempo naquele mundo rural que começava a se urbanizar.

O tempo existia primeiramente de acordo com os ciclos agrícolas e noções rudimentares de marcação, como dia e noite, inverno e verão.

Seguia também os ofícios religiosos --não à toa a palavra hora se origina, no latim, de oração-- e os sinos das igrejas guiavam os moradores medievais. Como diz Le Goff, era basicamente um "tempo sem pressa".

O surgimento da figura do mercador é decisivo. Negociante que vive da usura, ele vai causar um grande conflito com a teologia da Igreja Católica, pois seu tempo se contrapõe ao religioso.

Nos preceitos que irão embasar as normas cristãs, clérigos irão tentar sustentar que a usura não podia existir, pois o ganho do mercador "supõe uma hipoteca sobre um tempo que só a Deus pertence". A condenação não se dava prioritariamente pela cobrança abusiva de juros (noção ainda presente hoje, como nos protestos da Grécia), mas sim pela "posse" que

Deus tinha (tem!) do tempo.

Na história das religiões, outras crenças também rejeitam a usura, como o islamismo e o tema é bem atual. No mês passado, por exemplo, um jogador de futebol se recusou a viajar com seu time, o inglês New Castle, por não aceitar a camisa do clube patrocinado por uma financeira.

Na obra, Le Goff descreve como zonas urbanas já estavam se consolidando a partir do século 10, como o norte da Itália e o da França, o sul da Inglaterra e a Alemanha.

Aliado ao surgimento dos primeiros sobressaltos inflacionários e a multiplicação das moedas, esses fatos irão exigir a concepção de um tempo bem diferente: aquele medido matematicamente.

Daí o aparecimento dos relógios a partir do século 14, que começam a ser instalados em torres públicas. Seus sinos irão marcar com exatidão as horas das transações comerciais e dos turnos operários, como já previa um documento de 1355, de Aire-sur-la-lys, na França.

'MORAL CALCULADORA'

Assim, o "velho sino [das igrejas], voz de um mundo que morre, vai passar a palavra a uma nova voz", a dos relógios dessa época.

Séculos antes da máxima capitalista ("tempo é dinheiro"), perder tempo passa a ser pecado grave também na Idade Média, que cria sua "moral calculadora". "O tempo que só pertencia a Deus agora é propriedade do homem."

Associada a isso está também a visão cristã do trabalho, ainda influenciada pela herança greco-romana, que vivia da escravatura e se orgulhava do ócio.

A ideologia medieval depõe contra o trabalho, pois "não era um 'valor', não havia nem palavra para designá-lo". Na cultura cristã, era "instrumento de penitência",e o homem deveria trabalhar à semelhança de Deus. "Ora, o trabalho de Deus é a Criação. Portanto, toda profissão que não cria é má ou inferior", o que se confronta com os ofícios em gestação à época.

Daí a lista de profissões ilícitas. Além do mercador havia taberneiros (que vendiam vinho) e professores (que comercializavam conhecimento e ciência, "dom de Deus", que não pode ser vendido).

Mas esses dogmas vão se alterando conforme surgem novas profissões. A lista de ofícios vetados diminui e os clérigos irão justificar até os "lucros dos mercadores", inclusive a "amaldiçoada usura". Afinal, já é a época da Reforma e os protestantes nascem lidando muito bem com o trabalho.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Agimos com o dinheiro como fazemos com a saúde

A maioria das pessoas procura um médico apenas quando todas as alternativas não mostraram eficiência. Primeiro negam a doença, depois imaginam que é um mal passageiro, fazem uma incursão no sobrenatural --com rezas ou simpatias-- e, se tudo falhou, vão ao hospital.

Segundo André Massaro e Conrado Navarro, agimos da mesma forma com o dinheiro. "A cena se repete todos os dias, seja nos consultórios médicos, seja nos escritórios dos consultores financeiros".
No livro "Dinheiro É um Santo Remédio", Massaro e Navarro usam a analogia com a medicina para mostrar que pequenos problemas podem se transformar em dificuldades graves, provocando um ciclo de deterioração financeira.
"Como é simples verificar, a saúde física e financeira têm muito em comum", contam. "A maioria dos problemas econômicos das pessoas está associada não ao dinheiro, e sim a atitudes, comportamento e estilo de vida".
Os autores ensinam ao leitor como tomar medidas preventivas, como controlar o colesterol ou praticar exercícios regularmente, e reagir assim que a conta bancária der sinal de fragilidade.
Massaro, consultor e educador financeiro, também assina "Por Dentro da Bolsa de Valores". Investidor e maratonista, Navarro atua como consultor especializado em finanças pessoais e é autor de "Vamos Falar de Dinheiro?".

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Para entender o vasto mundo da corrupção


Por Adauri Antunes

Palavra presente em praticamente todas as manifestações dos últimos dois meses nas principais cidades do país, a corrupção é mais repudiada do que entendida. Fica difícil para qualquer cidadão cumpridor de seus deveres aceitar mensalões e seus sucedâneos, gastanças de políticos com dinheiro desviado de programas de governo, suportar calado denúncias sobre compra e venda de favores em conluios público-privados os mais variados. Isso, sem contar sonegação fiscal, comércio ilegal, informalidades abusivas, exemplos ou desdobramentos de diversas formas de pactos que ferem fundo o interesse público.

Antes que os mais revoltados imaginem alternativas além das manifestações de rua, escapando do viés democrático, é preciso discutir formas de quebrar as engrenagens de funcionamento da corrupção e seu impacto no sistema econômico, para levar o país a superar obstáculos no caminho do desenvolvimento.

Essa é a intenção de "Corrupção - Entrave ao Desenvolvimento do Brasil", livro do jornalista Oscar Pilagallo, que está sendo lançado agora, a partir do seminário "O impacto da corrupção sobre o desenvolvimento", realizado em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco) com apoio do Valor.

Ficou claro durante o seminário, o que Pilagallo transpôs para o livro, que a corrupção "subjacente a múltiplas distorções na economia subtrai recursos das políticas públicas, prejudica a sociedade, causa perda de competitividade das empresas, fortalece a cultura da leniência e incentiva a conivência com situações de transgressão". Isso faz do livro um verdadeiro manual, didático, sobre o que é a corrupção, como pode ser combatida, suas origens - e bem oportuno, agora que a presidente Dilma Rousseff sancionou lei específica
para punição de empresas envolvidas em corrupção.

Com um enfoque antropológico, a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Ellen Gracie faz distinção entre corrupção e percepção da corrupção, "o que nos conduz necessariamente a tratar da questão da sensação de impunidade". Segundo ela, existe corrupção no Brasil como em qualquer outro país e existem informações que chegam às pessoas "pelas lentes deformantes de aumento"de alguns veículos de comunicação.

"Não surpreende que a população seja tomada de um mal-estar coletivo. Ao ler os jornais, tem-se a impressão de que todas as instituições estão corroídas", afirma a ex-ministra. Há uma atitude dualista do brasileiro comum frente à corrupção, observa Ellen Gracie, que oscila entre o denuncismo, geralmente enviesado para o pré-julgamento, e a condescendência com práticas "nada republicanas". Ela citou o caso do ex-ministro da Saúde Alceni Guerra, no começo dos anos 1990, acusado da compra superfaturada de bicicletas, denúncia que, comprovou-se mais tarde, não tinha procedência. Ao mesmo tempo, porém, o mesmo cidadão irado com as autoridades não vê nada de errado em furar uma fila ou estacionar o carro em cima de uma calçada.

Professor de ética e filosofia da Unicamp, Roberto Romano concorda com a ex-ministra do STF sobre o papel da mídia. Para ele, a tendência de nos depreciarmos em demasia tem a ver com o tratamento que os meios de comunicação dispensam a determinadas questões. E ainda compara a situação do Brasil com a de outros países, que não é das piores. Mas a gravidade do problema, garante, tem relação com a percepção e a geração da corrupção e o sincronismo desses eixos. "No mesmo momento em que um escândalo está sendo denunciado, todos os outros estão operando, o que muitas vezes não é levado em conta", explica Romano.

Outro participante do seminário que deu origem ao livro, Cristiano Noronha, da Arko Advice, atribui à "espetacularização da notícia"o aumento da percepção da corrupção e o fato de as pessoas não darem atenção aos avanços realizados. Acusações sem provas acabam resultando no descrédito das instituições e no repúdio dos cidadãos aos políticos de forma generalizada, fazendo com que a grande exposição cause distorção na percepção da corrupção. "Não existe qualquer evidência de que a corrupção no país fosse menor no passado, mas sim de que ela era menos visível", afirma Noronha.

Dizer que a percepção da corrupção aumentou, no entanto, como analisa Oscar Pilagallo, não significa dizer que a corrupção também não tenha aumentado. Existem, por exemplo, novas formas de atos corruptos de políticos, como os que levam ao aumento do poder político. "A corrupção que compra o poder é exacerbada por um sistema presidencialista de coalizão sobre uma base ideológica frágil, quando existente, como é o caso brasileiro. A governabilidade do país depende da força de uma aliança partidária que não tem identidade ideológica."

Embora aparentemente sempre esteja a postos para falar mal dos políticos, o cidadão está mais preocupado com a economia do que com a corrupção, analisa Noronha. "Se está empregado e recebe seu salário, ele não percebe a corrupção como um prejuízo para ele. Como dizia Platão, 'não há nada de errado com aqueles que não gostam da política: simplesmente, vão ser governados por aqueles que gostam'."O conferencista ainda cita pesquisa que mostra mais aceitação da corrupção por pessoas com menos escolaridade.

Sem fronteiras, com casos, denúncias e escândalos mundo afora, a corrupção passou a ser acompanhada pela Transparência Internacional, uma ONG que elabora anualmente o Índice de Percepção da Corrupção, de abrangência mundial, publicado desde 1995. Em 2012, ano do julgamento do mensalão, o Brasil ficou na 69ª colocação entre 17 6 países analisados, com 43 pontos, pouco abaixo da média internacional de 43,3 pontos. Em dezembro do ano passado, antes de divulgar seu ranking, a Transparência colocou em seu site um comentário sobre o julgamento do mensalão, observando que "o Brasil está colocando a luta contra a corrupção no topo da agenda".


Por mais carregado de otimismo que possa parecer o comentário da ONG, fica fácil entender a "Percepção" do nome do índice. Isso, porque no texto da Transparência Internacional também há um alerta para o fato de que, mesmo havendo condenações inéditas no mensalão, "ninguém se entrega à ilusão de que o problema da corrupção tenha sido resolvido". Há inegáveis avanços, como as eleições por urna eletrônica, a lei 9.840 (da corrupção eleitoral), a Lei da Ficha Limpa e a internet, entre outros. Importante, no livro de Oscar Pilagallo, é mostrar a corrupção com suas muitas faces, de modo que, se for o caso de ser enxergada como um "bicho de sete cabeças", o cidadão perceba, mesmo assim, que há como enfrentar o monstro.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Quem ajuda mais tem mais chances de subir na carreira

Por Caroline Marino

Um novo estudo feito pelo Insper, de São Paulo, com mais de 100 profissionais mostra que ajudar colegas de trabalho produz efeito positivo na construção de uma rede de contatos.

Segundo a pesquisa, o exercício da cidadania organizacional — que o Insper define como a disposição a dar um apoio que excede o escopo do trabalho para beneficiar a companhia ou um funcionário — pode contribuir para que o profissional que prestou o auxílio seja recomendado por colegas em projetos e vagas de trabalho.
De acordo com o estudo, atitudes positivas direcionadas a uma equipe funcionam melhor do que gestos direcionados a apenas uma pessoa. "Funcionários confiam mais em quem olha para a coletividade", diz Sean White, psicólogo e especialista do núcleo de carreiras do Insper, um dos responsáveis pela pesquisa.
Em sua opinião, é importante prestar atenção nas demandas do grupo para reforçar contatos. Relações estabelecidas fora do ambiente de trabalho, como em happy hours, encontros em associações, clubes ou igrejas, também conduzem à recomendação.
"Quem se doa para os outros tende a ter um crescimento mais rápido", afirma Fernando Schmitt, diretor de unidades regionais da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham). Segundo ele, a con­s­ciên­­cia de que a aprendizagem do grupo importa mais do que a individual é uma das características dos profissionais de sucesso.
"Meu lema é fazer para ter, pois nada vem de graça", diz Felipe Siqueira, de 33 anos, controller da subsidiária uruguaia da White Martins, fornecedora de gases industriais. Felipe diz que o segredo de manter bons relacionamentos no trabalho (e fora dele) é o comprometimento com a empresa e com os colegas de trabalho.
A receita também exige que o profissional não espere retorno imediato por sua benevolência. Para chegar aonde chegou, Felipe assumiu alguns desafios e sempre manteve a disposição para contribuir. Em 2011, quando era gerente interino de controles internos na White Martins no Brasil, resolveu ser voluntário em um projeto da empresa na Venezuela, já que nenhum dos executivos convidados aceitou ir. Não haveria aumento de salário nem promoção, e ele teria de embarcar em uma semana. 
"Decidi ir para contribuir e mostrar que estou disposto a assumir desafios", afirma. Deu certo. Depois de três meses, ele voltou para o Brasil e assumiu a gerência de uma nova área. Após um ano, foi convidado a gerenciar todas as áreas­ ligadas a finanças na unidade da empresa no Uruguai.
Mas nem sempre essa ajuda exige sacrifícios. Ela pode estar em pequenos gestos, como orientar alguém a organizar melhor suas pastas de e-mail ou se oferecer para marcar reuniões e almoços. "Quando você se mostra solidário, ganha notoriedade.
É como se estivesse acumulando créditos para outros projetos", diz José Augusto Minarelli, presidente da Lens & Mi­narelli, consultoria em recolocação e aconselhamento de carreira, de São Paulo. Quanto mais disposição você tiver em ajudar o outro e em pensar além de sua área, mais as pessoas vão confiar em você e lembrar seu nome na hora de um novo trabalho. No fim, todos ganham.
Como contribuir
Quatro atitudes que reforçam a chamada cidadania organizacional
1 Esteja disponível
Para se destacar, é necessário ter disposição para ajudar os demais. A capacidade técnica importa, mas o profissional que vai além de sua função pelo bem-estar do grupo cresce muito mais do que aquele igualmente capacitado que apenas age dentro de sua área.
“Colocar-se no lugar do outro deve permear tudo o que fazemos”, diz Christiano Bergman, de 40 anos, gerente de pós-venda da Bematech, empresa de automação comercial de Curitiba, que no dia a dia costuma agir dessa forma.
Segundo ele, existem muitas ações que podem facilitar a vida de quem trabalha na mesma empresa, como se mostrar disponível para tirar eventuais dúvidas sobre prazos, custos e processos e sempre entregar um trabalho bem-feito.
2 Faça aquilo que ninguém quer fazer
Sabe aqueles trabalhos mais operacionais que ninguém quer fazer, como marcar reuniões ou almoços e reservar salas para eventos? Solidarizar-se para ajudar nessas tarefas mostra que você olha para a empresa de forma geral e não se importa em fazer atividades mais técnicas. Outra sugestão interessante é auxiliar as pessoas a realizar essas tarefas de maneira mais rápida, se você tem facilidade para isso.
“Sempre há um atalho que pode facilitar a vida de alguém. O Excel, por exemplo, possibilita concluir praticamente qualquer estudo de demanda, venda, controle e resultado”, afirma Victor Vieira, de 27 anos, gerente da rede de prestadores da Fácil Assit, empresa de assistência 24 horas, de São Paulo. 
3 Compartilhe conhecimento 
Se você tem domínio sobre algum processo, como redigir propostas e navegar nas redes sociais, ou tem facilidade em um segundo idioma, e percebe que um colega está com dificuldade, tente ajudá-lo.
Não se trata de fazer por ele, e sim de orientá-lo. “O que para alguém é uma dificuldade, para você pode ser algo simples”, afirma Fernando Schmitt, diretor de unidades regionais da Amcham Brasil. Por que não ajudar um colega a finalizar uma planilha? Isso gera empatia.
4 Saiba receber 
Seja atencioso com quem chega à empresa ou muda de área. Mostrar como são os projetos e apresentar as pessoas são atitudes simples, mas que mostram solidariedade.
Quando ainda estava na sede da White Martins no Brasil, Felipe Siqueira se lembra de ter trabalhado mais para ajudar uma funcionária que havia acabado de trocar de área. “Ela ainda precisava dar atenção ao antigo setor. É uma troca”, diz Felipe. “Quando precisei, também obtive ajuda.” 

domingo, 4 de agosto de 2013

Pensamento do dia


'Mundo enfrenta vácuo de liderança', diz analista geopolítico

Em "O Fim das Lideranças Mundiais", o analista geopolítico Ian Bremmer questiona qual seria o país --ou aliança de países-- apto a ser uma liderança mundial. Segundo ele, pela primeira vez em mais de 70 anos, esse poder não existe mais. Ninguém está no comando.
Durante a segunda metade do século 20, os países deste lado da cortina de ferro confiavam na força econômica dos Estados Unidos, da Europa e do Japão para a manutenção do livre mercado. O mesmo se dava no cenário político internacional.
Os Estados Unidos procuram se recuperar após o golpe da crise de 2008 e a União Europeia ainda tenta colocar as finanças em ordem, tomando medidas severas enquanto o número de desempregados cresce. "Não conte com o Japão", avisa Bremmer.
"O Japão, ainda a terceira maior economia do planeta, tampouco está preparada para desempenhar um papel mais atuante em vários níveis globais", diz. "Dada a sua história imperial, o Japão, assim como a Alemanha, tem se mostrado relutante em assumir maior presença política e militar em âmbito internacional".
Para o autor de "O Fim das Lideranças Mundiais", as potências emergentes --Brasil, Índia e China-- enfrentam problemas domésticos internos e não estão maduros para assumir o cargo. Isso só aconteceria se a "geopolítica fosse um roteiro produzido por Hollywood".
O cenário atual produz o que Bremmer nomeou de G-Zero, um mundo sem liderança. "Como o G7 é um anacronismo e o G20 é mais uma aspiração do que organização, alguns já cogitaram o G3 que permitiria a Estados Unidos, Europa e Japão combinar seus recursos".
Seja qual for o resultado nos próximos anos, o vácuo no poder mundial será preenchido. "O Fim das Lideranças Mundiais" analisa e apresenta quais são as melhores apostas.
Presidente do Eurásia Group, Ian Bremmer presta consultoria e faz análise de riscos políticos globais. Segundo "The Economist", "Bremmer é especialista em grandes reflexões".

quarta-feira, 31 de julho de 2013

William Ury - O Negociador



Por Paulo Lima e Micheline Alves
William Ury era um menino de 9 anos de idade quando a Guerra Fria, instaurada entre o governo do seu país, os Estados Unidos, e o da extinta União Soviética, chegava a um de seus capítulos mais tensos. Era 1962 e a corrida armamentista entre as duas superpotências de então tinha atingido proporções tão delirantes que ambos os lados tinham o poder de destruir o planeta inteiro com um ataque nuclear. Naquele ano, o episódio que ficou conhecido como a crise dos mísseis em Cuba – país que abrigava o arsenal soviético estrategicamente apontado para o território inimigo – colocou no imaginário coletivo o temor de que, em um simples apertar de botão, a humanidade poderia chegar ao fim.
Ury estudava na Suíça nessa época, mas o fantasma da guerra nuclear que assombrou sua geração sempre esteve vivo em sua cabeça. Mais do que isso, foi uma das razões que o levaram a se dedicar à área em que hoje ele é um dos nomes mais proeminentes: a mediação de conflitos. Antropólogo formado pela Universidade de Yale e pós-graduado em Harvard – da qual é diretor do Global Negociation Project –, ele passou os últimos 35 anos envolvido em negociações tão encrencadas quanto o conflito entre a Rússia e a Chechênia, a guerra civil que desintegrou a ex-Iugoslávia, o apartheid na África do Sul, a crise entre o presidente venezuelano Hugo Chávez e a oposição que tentou lhe tomar o poder, e muitas outras.
Fora da política internacional, Ury também ganhou prestígio ao mediar negociações relacionadas ao mundo dos negócios, especialmente de empresas familiares ou que passaram por fusões, situações invariavelmente cobertas de conflitos. Por conta de experiências tão diversas, não é incomum que lhe perguntem quais as negociações mais difíceis e dolorosa: as que acontecem entre partes que não se conhecem (como países ou corporações com interesses divergentes) ou as que se dão entre pessoas que são próximas (como irmãos discutindo o futuro de um negócio criado pelo pai). Ele responde sem hesitar: é muito mais complicado resolver as questões que envolvem pessoas que cresceram juntas ou que têm o amor e a amizade como componentes do relacionamento.

"O Brasil tem essa habilidade de dissolver limites. Há um talento para convivência, algo que o munto inteiro precisa aprender"

Nascido em Chicago, criado em San Francisco, estudante por muitos anos na região de Boston e com andanças pelos cantos mais diversos do mundo – incluindo aí os tempos de escola suíça e suas vivências como antropólogo com nativos guerreiros da Nova Guiné, com o povo Semai, na Malásia, entre outros –, Ury cumpria sua agenda de cidadão global quando fez a mais recente passagem por São Paulo, no início de maio, para apresentar a palestra “Como negociar com eficiência com os membros da família”. Vinha do Chile, onde também ministrou a palestra, e seguiu para a Colômbia, onde está envolvido atualmente em tentativas de acordos relacionadas às Farc, as forças revolucionárias que aterrorizam aquele país há décadas. As incontáveis viagens fazem com que ele valorize ainda mais o porto seguro – a casa em meio às montanhas da cidade de Boulder, no Colorado, onde vive com a mulher, uma brasileira, e três filhos.
Outro ponto do globo pelo qual passa frequentemente é o Oriente Médio, região onde está um dos conflitos que especialistas (e leigos) do mundo todo consideram insolúvel. Para ele, não é. Na opinião de Ury, também parecia impensável logo depois da Segunda Guerra Mundial que um dia pudesse existir algo como a União Europeia, em que estados como França e Alemanha, inimigos históricos, se tornaram aliados. Ou que um terrorista do IRA, o Exército Republicano Irlandês, pudesse entrar em harmonia com os líderes protestantes que costumava atacar literalmente com ferro e fogo – o que, de fato, aconteceu há poucos anos.
Para Ury, há esperança de paz na Palestina e um dos caminhos é uma aposta na integração cultural dos povos daquela região. Foi com essa inspiração que ele criou, em 2006, o Caminho de Abraão, espécie de peregrinação que passa por diversos países em conflito e que já foi percorrido por 4 mil turistas com disposição não só para conhecer a história do berço das três maiores religiões monoteístas do mundo – o cristianismo, o judaísmo e o islamismo –, mas também para espalhar um ideal de pacificação e união entre povos hoje tidos como inimigos.
Apaixonado pelo Brasil, lugar que, segundo ele, tem muito a ensinar ao mundo sobre como lidar com a diversidade, o autor de best-sellers como Como chegar ao simSupere o não e o recém-lançado em português O poder do não positivo, que somam milhões de exemplares vendidos mundo afora, completa 60 anos em setembro. Ele recebeu a equipe da Trip em uma noite de domingo e falou não apenas das missões internacionais das quais participou, tão variadas quanto espinhosas, mas também da arena delicada e profunda em que são travadas batalhas diárias, em qualquer lugar do mundo onde houver mais de um ser humano convivendo: a família – e, mais especificamente, os relacionamentos afetivos. William Ury se tornou especialista nesse campo porque uma mesma pergunta o guia desde sempre, esteja ele em um gabinete de governo, em uma sala entre conselheiros de uma empresa ou discutindo com a filha adolescente: como aprender a viver junto?

"Tornou-se cada vez mais fácil ser destrutivo"

Quando você percebeu que tinha habilidade como negociador na vida? Já me fiz essa pergunta muitas vezes na vida [risos]. Há duas coisas que, acho, me predispuseram a isso: uma é que quando eu tinha 5 ou 6 anos nos mudamos para a Suíça, onde passei anos. E, frequentando uma escola internacional, meus primeiros companheiros eram gente do Líbano, Irã... havia estudantes de tantas partes do mundo que aprendi a lidar com a diversidade. A segunda coisa é que nas brigas em casa, quando meus pais discutiam, eu sempre assumia um papel de mediador.
Era algo natural pra você. Sim, acho que desde o começo eu já fazia a pergunta que se tornou minha paixão: como aprender a viver junto? Na adolescência, em plena Guerra Fria, vivíamos em alerta nos Estados Unidos. Estávamos preparados para, a qualquer momento louco, alguém acordar em Moscou e simplesmente dizer “este é o dia”, e então não haveria futuro. Isso nunca fez o menor sentido pra mim. Por que destruir o mundo? Foi mais uma coisa que me motivou a ir por esse caminho.
Por que antropologia? Em parte porque eu queria entender a natureza humana, a evolução da humanidade, e este momento particular na evolução, em que o gênio humano e as tecnologias criadas por ele podem ser usadas para destruição em massa. Tornou-se cada vez mais fácil ser destrutivo. A escolha é entre isto: a destruição e a nossa habilidade para nos desenvolvermos psicologicamente, emocionalmente, socialmente, espiritualmente.
O Brasil tem sido descrito como bem preparado para lidar com a diversidade. Qual sua impressão sobre a personalidade do país? Toda cultura tem seus pontos fortes, e um dos mais relevantes no Brasil é essa habilidade de dissolver limites. O termo “brasilidade” define essa habilidade de integrar de maneira natural, que flui. Tudo flui no Brasil, a música, até o jeito de as pessoas dirigirem ou jogarem futebol, em tudo há esse “dar um jeito”. Aqui há integração entre árabes e judeus. Há um talento para a convivência, algo que o mundo inteiro precisa aprender agora.

"Sim, a guerra faz parte da nossa natureza, mas tão potente quanto ela é a cooperação"

Você não percebe essas características em outros lugares? Há lugares semelhantes, mas não como o Brasil. Você até sente essa mistura em Manhattan,... mas o Brasil tem uma ligação com o coração, vejo aqui características mais femininas, receptividade, aceitação, sensualidade. Por isso o mundo todo adora os brasileiros. Um americano no Oriente Médio não desperta nenhuma reação calorosa, mas se a pessoa diz que é do Brasil há uma festa.
Ouço da minha filha de 7 anos perguntas como “o que é guerra?”, “por que as pessoas brigam?”. Difíceis de responder, não? Sim, eu faço as mesmas perguntas! Vi de perto muitos lugares em guerra e em todos eles me perguntei: por que as pessoas brigam? A resposta que arrisco é que elas brigam porque estão sofrendo. Quando há dor, geralmente associada a humilhação, a um sentimento de exclusão, elas se defendem. Quase todas as pessoas com quem você conversar numa disputa dirão que não estão atacando: elas dizem que estão se defendendo. Mesmo se estão atacando. Todo mundo tem essa construção interna de que tem a razão, de que está certo.
Quando um indivíduo entra numa briga, geralmente já criou uma história na cabeça. Quando eu trabalhava no conflito entre Estados Unidos e União Soviética, sempre ouvia: “Vamos brigar para sempre, é da natureza humana”. Mas, mergulhando na antropologia da guerra, passando algum tempo com sociedades muito simples, como os bosquímanos na África do Sul, os Semai na Malásia ou os guerreiros da Nova Guiné, descobri que, sim, a guerra faz parte da nossa natureza, mas tão potente quanto ela é a cooperação. Não somos guiados por genes que nos levam a inevitáveis disputas. Os suecos têm origem viking e são criaturas pacíficas. As guerras que já aconteceram entre franceses e alemães não impediram que hoje eles sejam aliados. A natureza humana é maleável.
Gostaria que você falasse sobre dinheiro, a energia em torno dessa ideia. As pessoas querem sempre mais, parecem nunca estar satisfeitas. Em negociações, muito frequentemente as pessoas estão brigando por dinheiro. E minha pergunta é: dinheiro para quê? Você não leva dinheiro com você quando a vida acabar, então qual o objetivo de querer mais e mais? Tenho visto muitas pessoas com grandes fortunas descobrindo que dividir o que têm traz mais resultados. Tenho um amigo em Nova York que era um bem-sucedido empresário da noite, com muito dinheiro, namorando as mais belas modelos, e durante um Natal em Punta del Este – grandes casas, aviões particulares – ele se sentiu desesperadamente infeliz. Foi trabalhar como fotógrafo voluntário num navio que provia serviços médicos na costa da Libéria. Acabou levantando fundos para construção de poços na África. O que ele diz é que se sentiu tão mais realizado... O dinheiro, muitas vezes, é uma ilusão.
Você está no Brasil para uma palestra sobre conflitos em empresas familiares. Conflitos em família são os mais difíceis que existem? Muitas vezes me perguntam o que é mais desafiador: conflitos em que as partes se conhecem ou entre estranhos? Respondo que a mais difícil negociação é entre pessoas que são próximas. Quando você soma as dinâmicas de um negócio, uma empresa, às dinâmicas internas de uma família, as questões do negócio – quem deve ser promovido, quem será o CEO etc. – se misturam a sentimentos do tipo “você sempre foi o preferido da mamãe”. É extremamente difícil mediar negócios em família. E, se você olhar para a política internacional, as guerras mais comuns hoje não são entre estados-nações: são conflitos internos.
O adversário está dentro de casa. Exatamente. Depois de 35 anos trabalhando nesse campo, vejo que a maior barreira para o sucesso de uma negociação não é o outro – “como é difícil tal pessoa, tal chefe, tal governante”. A grande barreira somos nós mesmos, e isso está ligado à tendência humana à reação. Só enxergamos a necessidade de brigar pelas coisas.
Qual sua experiência com conflitos entre casais? Quais as diferenças de sentimentos numa disputa entre um casal e uma negociação com adversários externos? Quando lidamos com uma situação de negócios, as bases são dinheiro, poder, prestígio, mas entre um casal a conversa tende a tocar em dores profundas, como a ideia de rejeição. Quanto mais você conhece aquela pessoa, quanto mais investiu naquele relacionamento, mais vulnerável fica à perda. Seu senso de identidade mudou: você é o casal. Vocês formaram família, vivem juntos, sua identidade está atrelada ao outro. As disputas nos negócios estão frequentemente relacionadas a uma diferença de interesses, mas a identidade é a camada mais profunda de um indivíduo, então a dor é muito maior quando isso está em discussão.
Um importante psicanalista brasileiro diz que homens e mulheres falam idiomas muito diferentes. Ele usa exemplos engraçados: quando um homem diz “que tal você pegar um táxi?”, querendo ser prático, a mulher pode entender como “eu rejeito você com toda a minha força”. O que você sabe sobre essas duas línguas tão diferentes? Há muito mal-entendido porque em geral as pessoas supõem que estão sendo claras, mas em comunicação nem sempre isso acontece: a outra pessoa pode não entender nada do que estamos falando. Para mim, a maior habilidade em negociação, ou melhor, na vida, é aprender a ouvir. Em geral achamos que estamos ouvindo, mas não estamos. Quando eu fiz parte de um grupo de pesquisadores reunidos para entender a crise dos mísseis em Cuba, que nos deixou muito perto de uma guerra nuclear, ficou claro que nenhum dos lados, russos e americanos, tinha ideia do que o outro estava dizendo. É a mesma coisa nos relacionamentos entre homens e mulheres.
E quem tem mais habilidade de ouvir, homens ou mulheres? Eu diria que em geral as mulheres tendem a ser melhores ouvintes e têm mais das características necessárias ao modelo mais moderno de gestão, em que ouvir e colaborar têm mais espaço do que a competição no estilo “macho”. Mas claro que ambos podem aprender a ouvir melhor. Acho que deveria haver cursos sobre isso nas escolas. Da mesma forma que aprendem geografia, as crianças deveriam ter aulas sobre ouvir. Porque não é exatamente fácil.

"É positivo para a paz que haja mais mulheres no poder"

O fato de haver mais mulheres no poder, negociando, muda seu trabalho? Está mudando. O mundo esteve em desequilíbrio por muito tempo, no que se refere a homens e mulheres, mas estamos na era em que as coisas estão se reequilibrando. Não quero dizer que ter mulheres negociando é por si o que torna tudo mais fácil – Margaret Thatcher foi uma das pessoas mais difíceis do mundo –, mas é uma tendência positiva, inclusive para a paz no mundo, que haja mais mulheres no poder.
No ano passado a Trip teve a chance de juntar o empresário Abílio Diniz e o lama Michel Rinpoche. De um lado, um homem muito rico de 76 anos, um sujeito forte, em meio a um enorme conflito nos negócios; do outro, um brasileiro de 33 anos que se tornou lama. E o lama, em certo momento, veio com esta definição: na maioria das vezes, para ganhar você precisa perder antes. Faz sentido, ainda que pareça paradoxal. Falando de mulheres e homens: quem é o vencedor em um casamento? É uma pergunta que não faz sentido de verdade, certo? Nos negócios, idem: quem está ganhando, você ou o cliente? Não é essa a pergunta. Se você for flexível, aprender a ouvir e ceder, vai ter melhores resultados. Há estudos sobre isto: pessoas que cedem mais ganham mais. Há a ideia de que é mais forte quem impõe e que só os fracos negociam. Mas uma nova lógica está mudando essa mentalidade.
Você vê o mundo progredindo nesse sentido ou estamos estagnados? Pode haver momentos de estagnação, mas é nesses momentos que somos obrigados a avaliar se algo não funciona, e vamos atrás de algo melhor. Estamos sendo forçados a superar o modelo em que as decisões ficam com quem está no topo e o resto das pessoas simplesmente obedece. As decisões hoje não são mais de uma figura que detém o conhecimento e o poder. Para mim, a revolução que precisa acontecer é a “revolução do nós”, em substituição à sociedade do eu, em que as necessidades individuais – o que eu preciso, o que eu desejo comprar etc. – se sobrepõem ao resto do mundo. É a hora de refletir: é possível um mundo em que todo ser humano tenha dignidade? Para os que veem nisso uma utopia, eu respondo como antropólogo: somos macacos que viviam em árvores e sobrevivemos ao longo do tempo aprendendo a nos comunicar, a cooperar. Por que não poderíamos aprender isso, a viver junto?
Como tudo isso se manifesta na sua vida pessoal? Você nunca briga? Bom, eu tenho uma filha de 15 anos que tem certeza de que me tem na palma da mão! E provavelmente é isso mesmo [risos]. Muitas vezes desisto de qualquer negociação e faço o que ela quer. Mas em geral tudo o que aprendi me ajuda na vida. Sempre aplico o que aprendi a cada negociação em situações diversas. Não estou dizendo que minha vida seja perfeita nesse aspecto, mas estou aberto a aprender.
Alguma vez já se envolveu em uma briga física? Sim... provavelmente na escola. Na Suíça estudei em colégio para meninos, então era preciso lutar pela sobrevivência. Mas faz muito tempo. Uma coisa que se aprende é a observar a si mesmo. A metáfora que gosto de usar sobre negociações é “imagine que você se afasta e vai para uma sacada, um lugar de calma, onde você assiste à situação de outra perspectiva”. É importante desenvolver essa capacidade de recuar e se perguntar: o que é realmente importante aqui? Meu ego? Que o meu jeito prevaleça? Ou resolver o conflito?
Quando a coisa esquenta numa conversa você sempre vai para essa sacada? Um exemplo: um tempo atrás estive na Venezuela atuando como a terceira parte no conflito entre Hugo Chávez e a oposição. Minha primeira conversa com ele estava agendada para as nove da noite, na sede do governo. Esperei 1, 2, 3 horas, até que à meia-noite um assessor apareceu e disse: “O presidente está pronto para vê-lo”. Eu esperava encontrá-lo sozinho, mas o ministério todo estava na sala. Ele perguntou qual era minha impressão da situação e respondi: “Senhor presidente, conversei com alguns de seus ministros e com líderes da oposição e me parece que estão fazendo progressos”. Ele respondeu: “O que quer dizer com progressos?”, e continuou, aos berros, a apontar como eu era ingênuo, não sabia nada etc. Quando me vi ali, acuado, vendo todo o trabalho de negociação indo para o ralo, lembrei do conselho de um amigo para situações difíceis: beliscar a palma da mão, que traz uma dor momentânea e o mantém alerta. Fiz isso, me pus na sacada imaginária e pensei: vai adiantar eu discustir?
Como acabou o encontro? Eu me mantive em silêncio enquanto ele falou por 30 minutos. Como eu não reagia, apenas assistia a ele, em silêncio, ele foi se desarmando, mudando o tom, até terminar a fala e perguntar: “E então? O que eu deveria fazer?”. Ali sua cabeça estava mais aberta, menos reativa, e respondi: “Senhor presidente, acho que toda a Venezuela precisa ir para a sacada”. Era dezembro e até as festividades do Natal estavam suspensas por causa da tensão. Sugeri uma trégua, um período de duas semanas em que os ânimos se acalmassem. Ele gostou, a conversa se desenrolou em um clima completamente diferente daquele início desfavorável.
Depois de tantas negociações importantes, que trabalhos você aceita hoje? Tenho me dedicado muito às questões do Oriente Médio, tido como um conflito impossível de solucionar. Para mim, não é. É difícil, mas não impossível. Ali, da mesma forma que falamos sobre casamentos, é imprescindível lidar com a noção de identidade. Pesquisando isso acabei chegando à história de Abraão, personagem bíblico que de alguma maneira inspirou as religiões formadas naquela região. A jornada dele e de sua família é a origem compartilhada por bilhões de pessoas unidas em torno do cristianismo, do islamismo e do judaísmo. Na pesquisa sobre isso tive a ideia de uma caminhada. Juntar uma experiência como a do Caminho de Santigo de Compostela, que faz enorme sucesso, com esse aprendizado. Foi assim que criei, há sete anos, o Caminho de Abraão.
Como está esse projeto? Já tivemos quase 4 mil pessoas fazendo o caminho, uma jornada que requer enorme diplomacia. Quando consegui apoio de investidores para refazer a viagem original de Abraão pela primeira vez, muitos nos diziam que seria impossível. Mas juntamos 25 pessoas, incluindo brasileiros como o rabino Nilton Bonder, e representantes de diferentes crenças. Trabalhamos com comitês nos diferentes países – Turquia, Síria, Jordânia, Israel – e em cada lugar que passamos explicamos o significado daquele caminho. Claro, é um percurso bem maior que o Caminho de Santiago, há uma logística. Mas esse trajeto é a melhor metáfora para o que buscamos: inclusão, compreensão, tolerância, união.

"É importante a capacidade de se perguntar: o que é importante aqui? Meu ego? Ou resolver o conflito?"

O Tibete é um caso interessante: depois de ter a terra invadida, templos destruídos, crimes hediondos e sem fim, eles falaram de paz, amor. Reações pacíficas como essa são muito raras, não?São exceções. Já tive a chance de estar com o dalai-lama e, quando ele fala da dor em seu coração, em seu povo, não demonstra animosidade em relação à China ou a qualquer agressor. É uma grande demonstração de poder. Há outros exemplos, como Gandhi, Nelson Mandela. E Martin Luther King, que representa a maior mudança de paradigmas em meu país, com o movimento por direitos civis. Com o discurso de paz, ele mudou uma sociedade inteira.
As religiões têm essas bases, amor, solidariedade. Mas, com o tempo, poder e dinheiro dominam tudo. O que acontece? As pessoas esquecem a essência dos próprios profetas fundadores de cada religião. Buda, Cristo, Maomé, Moisés... as ideias são distorcidas. Uma aula de semântica que nunca esqueci começava com a frase: “Lembrem que o mapa não é o território”. Em religião, o território é o que cada profeta vislumbrou a respeito de amor, conexão, universalidade. As pessoas fazem um mapa do território e então disputam quem tem o melhor caminho. Todos querem chegar à mesma montanha. Mas passam a vida brigando para provar que sua rota é melhor.
Qual o momento mais difícil de sua trajetória? Foi a disputa entre o governo da Rússia, então sob comando de Boris Iéltsin, e o da Chechênia. Trabalhando com os principais conselheiros de ambas as partes, organizamos um encontro em território neutro, Haia, e foi muito difícil. Havia dor, sofrimento em jogo. Foi muito frustrante ver a possibilidade de paz se esvaindo. O líder checheno acabou assassinado depois... O resultado todos sabemos, uma tragédia, nos anos 90. Quando veio o 11 de Setembro, descobriu-se que a porta de entrada de um dos rebeldes na Al Qaeda foi ter participado da guerra na Chechênia. Foi dali que ele foi recrutado para a missão nos Estados Unidos. Tudo está conectado: um conflito distante tem consequências em todo o mundo.

"Obama tem feito muitas coisas boas como negociador, mas precisa fazer movimentos mais fortes"

O que acha de Barack Obama como negociador? Sou um admirador de Obama e sei que ele recebe muitas críticas, particularmente no que se refere a negociações. Ele tem feito muitas coisas boas como negociador, tenta ouvir todos os lados, é paciente. É bem mais habilidoso do que o antecessor, George W. Bush, mas acho que precisa fazer movimentos mais fortes. Na verdade não precisa ser ele, é preciso engajar as pessoas à sua volta. Por exemplo, os conservadores têm muito medo de que uma presença mais forte do governo limite as liberdades conquistadas. Sem lidar com esse medo genuíno, não vai ser possível fazer progressos. Não dá para simplesmente tirá-los da conversa. Essa é uma tendência comum na política: igno-rar ou diminuir o outro lado, em vez de ouvir de verdade quais são seus sentimentos. Mas, quando as partes estão em uma mesma sala negociando, tudo é possível.
Mesmo a paz no Oriente Médio? Sim, eu acredito. Aconteceu na Irlanda! Se alguém dissesse 20 anos atrás que você poderia ter em um mesmo governo Ian Paisley, o mais intransigente líder protestante, e Martin McGuinness, ex-líder do IRA (o Exército Republicano Irlandês), as pessoas iam rir. E eles se juntaram. Se esses dois podem se unir e trabalhar juntos, todo mundo pode. As pessoas sempre partem do princípio de que uma cooperação é impossível, mas não é.