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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Francês narra as origens do capitalismo na Idade Média

Por Luís Eblak

Defensor da tese segundo a qual a Idade Média durou até o século 18 (e não 15), o historiador francês Jacques Le Goff é conhecido também por dar ao período uma importância que vai além de uma sociedade dominada por clérigos e senhores feudais.

No livro "Para Uma Outra Idade Média - Tempo, Trabalho e Cultura no Ocidente", lançado agora no Brasil, o medievalista de 89 anos narra o que pode ser tratado como as origens do capitalismo, numa época em que o sistema econômico não dava sequer sinais de vida.

Originalmente publicada na França em 1977, a obra é uma coletânea de artigos acadêmicos divididos em quatro partes. Duas delas tratam das concepções de tempo e trabalho na época e como a Igreja Católica precisou adaptar as visões que tinha sobre esses dois conceitos --básicos da sua teologia cristã.

A outra metade do livro aborda os temas cultura erudita e cultura popular e antropologia histórica.

Os estudos sobre o tempo e o trabalho já foram abordados em outras obras. Sobre o primeiro, por exemplo, o próprio Le Goff já abordou o assunto em "A Bolsa e a Vida" (ed. Civilização Brasileira).

'TEMPO SEM PRESSA'

O que se destaca em "Para Uma Outra Idade Média" é a forma como Le Goff descreve para o leitor --leigo, inclusive-- o significado sobre o tempo naquele mundo rural que começava a se urbanizar.

O tempo existia primeiramente de acordo com os ciclos agrícolas e noções rudimentares de marcação, como dia e noite, inverno e verão.

Seguia também os ofícios religiosos --não à toa a palavra hora se origina, no latim, de oração-- e os sinos das igrejas guiavam os moradores medievais. Como diz Le Goff, era basicamente um "tempo sem pressa".

O surgimento da figura do mercador é decisivo. Negociante que vive da usura, ele vai causar um grande conflito com a teologia da Igreja Católica, pois seu tempo se contrapõe ao religioso.

Nos preceitos que irão embasar as normas cristãs, clérigos irão tentar sustentar que a usura não podia existir, pois o ganho do mercador "supõe uma hipoteca sobre um tempo que só a Deus pertence". A condenação não se dava prioritariamente pela cobrança abusiva de juros (noção ainda presente hoje, como nos protestos da Grécia), mas sim pela "posse" que

Deus tinha (tem!) do tempo.

Na história das religiões, outras crenças também rejeitam a usura, como o islamismo e o tema é bem atual. No mês passado, por exemplo, um jogador de futebol se recusou a viajar com seu time, o inglês New Castle, por não aceitar a camisa do clube patrocinado por uma financeira.

Na obra, Le Goff descreve como zonas urbanas já estavam se consolidando a partir do século 10, como o norte da Itália e o da França, o sul da Inglaterra e a Alemanha.

Aliado ao surgimento dos primeiros sobressaltos inflacionários e a multiplicação das moedas, esses fatos irão exigir a concepção de um tempo bem diferente: aquele medido matematicamente.

Daí o aparecimento dos relógios a partir do século 14, que começam a ser instalados em torres públicas. Seus sinos irão marcar com exatidão as horas das transações comerciais e dos turnos operários, como já previa um documento de 1355, de Aire-sur-la-lys, na França.

'MORAL CALCULADORA'

Assim, o "velho sino [das igrejas], voz de um mundo que morre, vai passar a palavra a uma nova voz", a dos relógios dessa época.

Séculos antes da máxima capitalista ("tempo é dinheiro"), perder tempo passa a ser pecado grave também na Idade Média, que cria sua "moral calculadora". "O tempo que só pertencia a Deus agora é propriedade do homem."

Associada a isso está também a visão cristã do trabalho, ainda influenciada pela herança greco-romana, que vivia da escravatura e se orgulhava do ócio.

A ideologia medieval depõe contra o trabalho, pois "não era um 'valor', não havia nem palavra para designá-lo". Na cultura cristã, era "instrumento de penitência",e o homem deveria trabalhar à semelhança de Deus. "Ora, o trabalho de Deus é a Criação. Portanto, toda profissão que não cria é má ou inferior", o que se confronta com os ofícios em gestação à época.

Daí a lista de profissões ilícitas. Além do mercador havia taberneiros (que vendiam vinho) e professores (que comercializavam conhecimento e ciência, "dom de Deus", que não pode ser vendido).

Mas esses dogmas vão se alterando conforme surgem novas profissões. A lista de ofícios vetados diminui e os clérigos irão justificar até os "lucros dos mercadores", inclusive a "amaldiçoada usura". Afinal, já é a época da Reforma e os protestantes nascem lidando muito bem com o trabalho.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Agimos com o dinheiro como fazemos com a saúde

A maioria das pessoas procura um médico apenas quando todas as alternativas não mostraram eficiência. Primeiro negam a doença, depois imaginam que é um mal passageiro, fazem uma incursão no sobrenatural --com rezas ou simpatias-- e, se tudo falhou, vão ao hospital.

Segundo André Massaro e Conrado Navarro, agimos da mesma forma com o dinheiro. "A cena se repete todos os dias, seja nos consultórios médicos, seja nos escritórios dos consultores financeiros".
No livro "Dinheiro É um Santo Remédio", Massaro e Navarro usam a analogia com a medicina para mostrar que pequenos problemas podem se transformar em dificuldades graves, provocando um ciclo de deterioração financeira.
"Como é simples verificar, a saúde física e financeira têm muito em comum", contam. "A maioria dos problemas econômicos das pessoas está associada não ao dinheiro, e sim a atitudes, comportamento e estilo de vida".
Os autores ensinam ao leitor como tomar medidas preventivas, como controlar o colesterol ou praticar exercícios regularmente, e reagir assim que a conta bancária der sinal de fragilidade.
Massaro, consultor e educador financeiro, também assina "Por Dentro da Bolsa de Valores". Investidor e maratonista, Navarro atua como consultor especializado em finanças pessoais e é autor de "Vamos Falar de Dinheiro?".

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Para entender o vasto mundo da corrupção


Por Adauri Antunes

Palavra presente em praticamente todas as manifestações dos últimos dois meses nas principais cidades do país, a corrupção é mais repudiada do que entendida. Fica difícil para qualquer cidadão cumpridor de seus deveres aceitar mensalões e seus sucedâneos, gastanças de políticos com dinheiro desviado de programas de governo, suportar calado denúncias sobre compra e venda de favores em conluios público-privados os mais variados. Isso, sem contar sonegação fiscal, comércio ilegal, informalidades abusivas, exemplos ou desdobramentos de diversas formas de pactos que ferem fundo o interesse público.

Antes que os mais revoltados imaginem alternativas além das manifestações de rua, escapando do viés democrático, é preciso discutir formas de quebrar as engrenagens de funcionamento da corrupção e seu impacto no sistema econômico, para levar o país a superar obstáculos no caminho do desenvolvimento.

Essa é a intenção de "Corrupção - Entrave ao Desenvolvimento do Brasil", livro do jornalista Oscar Pilagallo, que está sendo lançado agora, a partir do seminário "O impacto da corrupção sobre o desenvolvimento", realizado em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco) com apoio do Valor.

Ficou claro durante o seminário, o que Pilagallo transpôs para o livro, que a corrupção "subjacente a múltiplas distorções na economia subtrai recursos das políticas públicas, prejudica a sociedade, causa perda de competitividade das empresas, fortalece a cultura da leniência e incentiva a conivência com situações de transgressão". Isso faz do livro um verdadeiro manual, didático, sobre o que é a corrupção, como pode ser combatida, suas origens - e bem oportuno, agora que a presidente Dilma Rousseff sancionou lei específica
para punição de empresas envolvidas em corrupção.

Com um enfoque antropológico, a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Ellen Gracie faz distinção entre corrupção e percepção da corrupção, "o que nos conduz necessariamente a tratar da questão da sensação de impunidade". Segundo ela, existe corrupção no Brasil como em qualquer outro país e existem informações que chegam às pessoas "pelas lentes deformantes de aumento"de alguns veículos de comunicação.

"Não surpreende que a população seja tomada de um mal-estar coletivo. Ao ler os jornais, tem-se a impressão de que todas as instituições estão corroídas", afirma a ex-ministra. Há uma atitude dualista do brasileiro comum frente à corrupção, observa Ellen Gracie, que oscila entre o denuncismo, geralmente enviesado para o pré-julgamento, e a condescendência com práticas "nada republicanas". Ela citou o caso do ex-ministro da Saúde Alceni Guerra, no começo dos anos 1990, acusado da compra superfaturada de bicicletas, denúncia que, comprovou-se mais tarde, não tinha procedência. Ao mesmo tempo, porém, o mesmo cidadão irado com as autoridades não vê nada de errado em furar uma fila ou estacionar o carro em cima de uma calçada.

Professor de ética e filosofia da Unicamp, Roberto Romano concorda com a ex-ministra do STF sobre o papel da mídia. Para ele, a tendência de nos depreciarmos em demasia tem a ver com o tratamento que os meios de comunicação dispensam a determinadas questões. E ainda compara a situação do Brasil com a de outros países, que não é das piores. Mas a gravidade do problema, garante, tem relação com a percepção e a geração da corrupção e o sincronismo desses eixos. "No mesmo momento em que um escândalo está sendo denunciado, todos os outros estão operando, o que muitas vezes não é levado em conta", explica Romano.

Outro participante do seminário que deu origem ao livro, Cristiano Noronha, da Arko Advice, atribui à "espetacularização da notícia"o aumento da percepção da corrupção e o fato de as pessoas não darem atenção aos avanços realizados. Acusações sem provas acabam resultando no descrédito das instituições e no repúdio dos cidadãos aos políticos de forma generalizada, fazendo com que a grande exposição cause distorção na percepção da corrupção. "Não existe qualquer evidência de que a corrupção no país fosse menor no passado, mas sim de que ela era menos visível", afirma Noronha.

Dizer que a percepção da corrupção aumentou, no entanto, como analisa Oscar Pilagallo, não significa dizer que a corrupção também não tenha aumentado. Existem, por exemplo, novas formas de atos corruptos de políticos, como os que levam ao aumento do poder político. "A corrupção que compra o poder é exacerbada por um sistema presidencialista de coalizão sobre uma base ideológica frágil, quando existente, como é o caso brasileiro. A governabilidade do país depende da força de uma aliança partidária que não tem identidade ideológica."

Embora aparentemente sempre esteja a postos para falar mal dos políticos, o cidadão está mais preocupado com a economia do que com a corrupção, analisa Noronha. "Se está empregado e recebe seu salário, ele não percebe a corrupção como um prejuízo para ele. Como dizia Platão, 'não há nada de errado com aqueles que não gostam da política: simplesmente, vão ser governados por aqueles que gostam'."O conferencista ainda cita pesquisa que mostra mais aceitação da corrupção por pessoas com menos escolaridade.

Sem fronteiras, com casos, denúncias e escândalos mundo afora, a corrupção passou a ser acompanhada pela Transparência Internacional, uma ONG que elabora anualmente o Índice de Percepção da Corrupção, de abrangência mundial, publicado desde 1995. Em 2012, ano do julgamento do mensalão, o Brasil ficou na 69ª colocação entre 17 6 países analisados, com 43 pontos, pouco abaixo da média internacional de 43,3 pontos. Em dezembro do ano passado, antes de divulgar seu ranking, a Transparência colocou em seu site um comentário sobre o julgamento do mensalão, observando que "o Brasil está colocando a luta contra a corrupção no topo da agenda".


Por mais carregado de otimismo que possa parecer o comentário da ONG, fica fácil entender a "Percepção" do nome do índice. Isso, porque no texto da Transparência Internacional também há um alerta para o fato de que, mesmo havendo condenações inéditas no mensalão, "ninguém se entrega à ilusão de que o problema da corrupção tenha sido resolvido". Há inegáveis avanços, como as eleições por urna eletrônica, a lei 9.840 (da corrupção eleitoral), a Lei da Ficha Limpa e a internet, entre outros. Importante, no livro de Oscar Pilagallo, é mostrar a corrupção com suas muitas faces, de modo que, se for o caso de ser enxergada como um "bicho de sete cabeças", o cidadão perceba, mesmo assim, que há como enfrentar o monstro.



domingo, 4 de agosto de 2013

'Mundo enfrenta vácuo de liderança', diz analista geopolítico

Em "O Fim das Lideranças Mundiais", o analista geopolítico Ian Bremmer questiona qual seria o país --ou aliança de países-- apto a ser uma liderança mundial. Segundo ele, pela primeira vez em mais de 70 anos, esse poder não existe mais. Ninguém está no comando.
Durante a segunda metade do século 20, os países deste lado da cortina de ferro confiavam na força econômica dos Estados Unidos, da Europa e do Japão para a manutenção do livre mercado. O mesmo se dava no cenário político internacional.
Os Estados Unidos procuram se recuperar após o golpe da crise de 2008 e a União Europeia ainda tenta colocar as finanças em ordem, tomando medidas severas enquanto o número de desempregados cresce. "Não conte com o Japão", avisa Bremmer.
"O Japão, ainda a terceira maior economia do planeta, tampouco está preparada para desempenhar um papel mais atuante em vários níveis globais", diz. "Dada a sua história imperial, o Japão, assim como a Alemanha, tem se mostrado relutante em assumir maior presença política e militar em âmbito internacional".
Para o autor de "O Fim das Lideranças Mundiais", as potências emergentes --Brasil, Índia e China-- enfrentam problemas domésticos internos e não estão maduros para assumir o cargo. Isso só aconteceria se a "geopolítica fosse um roteiro produzido por Hollywood".
O cenário atual produz o que Bremmer nomeou de G-Zero, um mundo sem liderança. "Como o G7 é um anacronismo e o G20 é mais uma aspiração do que organização, alguns já cogitaram o G3 que permitiria a Estados Unidos, Europa e Japão combinar seus recursos".
Seja qual for o resultado nos próximos anos, o vácuo no poder mundial será preenchido. "O Fim das Lideranças Mundiais" analisa e apresenta quais são as melhores apostas.
Presidente do Eurásia Group, Ian Bremmer presta consultoria e faz análise de riscos políticos globais. Segundo "The Economist", "Bremmer é especialista em grandes reflexões".

terça-feira, 30 de julho de 2013

Obra analisa dificuldades do país para engatar crescimento




















Por Érica Fraga

Por que o enorme potencial de desenvolvimento do Brasil, reconhecido há longa data, não se converteu em realidade?

Por que após a fase de bonança entre 1950 e 1980, a expansão da renda brasileira voltou a patinar?

Em 2012, a renda per capita brasileira medida em paridade do poder de compra (PPP, medida que elimina as diferenças de custo de vida entre países) equivalia a 24% da norte-americana.

Trata-se de uma fatia menor do que os 30% atingidos em 1980, após três décadas de crescimento robusto da economia brasileira.

O livro "Desenvolvimento Econômico - uma Perspectiva Brasileira" (ed. Campus/Elsevier), organizado pelos economistas Fernando Veloso, Pedro Cavalcanti Ferreira, Fabio Giambiagi e Samuel Pessôa, combina em 15 capítulos teoria, história e evidências práticas que indicam as respostas a essas perguntas.

A principal conclusão que emerge da leitura é que a baixa eficiência da economia tem atuado como principal freio do desenvolvimento brasileiro ao longo da história.

PRODUTIVIDADE

A primeira parte do trabalho, que tenta transmitir uma perspectiva teórica e comparada do desenvolvimento econômico dos países, já fornece elementos que apontam para esse fato.

Os autores ressaltam a importância da produtividade total dos fatores (PTF), que mede a eficiência com que tecnologia, capital humano e máquinas são combinados e utilizados na produção, para explicar as diferenças de renda entre os países.

A história do desenvolvimento mostra que os países podem ter períodos de forte expansão da PTF, como, por exemplo, quando há migração do centro da atividade econômica da agricultura para a indústria (setor mais produtivo que os demais), mas também revela a importância da qualidade das instituições para garantir que essas fases não passem de surtos, sem sustentação no longo prazo.

A segunda parte do livro ataca essas questões em diferentes períodos da história. O Brasil teve uma das recuperações mais rápidas após a crise internacional de 1930.
Porém, a trajetória de desenvolvimento tem sido errática, marcada pela repetição de políticas que, com base na análise de experiências passadas, acabaram se mostrando equivocadas.

Os autores citam medidas tomadas no início da ditadura militar que envolveram forte ajuste fiscal com corte de gastos, reforma tributária, criação do Banco Central e redesenho do sistema financeiro, que contribuíram para o forte crescimento caracterizado como "milagre econômico" entre 1967 e 1973. Porém, a reversão de parte das medidas de austeridade e a retomada de políticas pesadas de substituição de importações e fomento a investimentos industriais contribuíram para nova derrocada do processo de desenvolvimento do país.

No início da década de 1990, houve novo movimento de reformas, como a abertura comercial e a política de controle da escalada inflacionária, que contribuíram para interromper o processo de queda da renda per capita e da produtividade. A falta de políticas indutoras do aumento da eficiência tem feito, no entanto, com que o desenvolvimento do Brasil ocorra a ritmo lento.

ESTRATÉGIAS

Texto do economista Maurício Canêdo-Pinheiro mostra que o Brasil adotou ferramentas de política industrial semelhantes às usadas em países bem sucedidos como a Coreia do Sul, mas tem falhado na adoção de mecanismos de incentivos e punições baseados na adoção de metas que induzam as empresas a perseguirem, de fato, maiores ganhos de eficiência.

Embora o livro não enverede pelo caminho de projeções, dá pistas de que políticas adotadas nos últimos anos, como forte intervenção do Estado na economia e pesadas políticas industriais que podem atrapalhar o acesso do país a tecnologias mais avançadas produzidas fora podem representar repetições de erros do passado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

'Como as Gigantes Caem' investiga o que leva empresas à bancarrota

Grandes corporações falham. Após a Revolução Industrial, o mundo testemunhou o surgimento e o desaparecimento de muitas empresas. Algumas delas ainda são lembradas, outras caíram no esquecimento do público e dos livros de história.
Em "Como as Gigantes Caem", James Collins, ex-professor da Universidade de Stanford e coautor de "Feitas para Durar" e de"Empresas Feitas para Vencer", analisa os elementos que levam de marcas "consagradas" e "inabaláveis" à falência.
No livro, Collins apresenta os estágios da decadência e conclui que qualquer empresa corre o risco de falir e desaparecer por completo, não importa o quão bem-sucedida ela é ou já foi.
Se o declínio for percebido com antecedência e algumas medidas forem tomadas, mesmo em estágio avançado de decadência, empresas podem se reerguer e voltar a prosperar, defende o autor.
Abaixo, leia um trecho de "Como as Gigantes Caem".
*
PREFÁCIO
Eu me sinto um pouco como uma cobra que engoliu duas melancias ao mesmo tempo. Dei início a este projeto para escrever apenas um artigo, uma distração para usar minha caneta enquanto concluía a pesquisa para meu próximo livro sobre o necessário para perdurar e triunfar quando o mundo gira descontroladamente (com base em um projeto de pesquisa de seis anos com meu colega Morten Hansen). Mas a questão de como as gigantes caem foi além das limitações de um artigo e evoluiu para se transformar neste pequeno livro. Pensei em deixar este projeto de lado até ter concluído o livro sobre turbulência, mas então as gigantes começaram a cair, como peças de dominó, despencando a nosso redor.
Estou escrevendo este prefácio no dia 25 de setembro de 2008, em um avião da United Airlines, olhando para a silhueta de edifícios contra o céu de Manhattan, assombrado com os eventos cataclísmicos. A Bear Stearns caiu da 156a posição na lista Fortune 500 para 0, comprada pela JPMorgan Chase em um acordo desesperado elaborado em um fim de semana. A Lehman Brothers abriu falência após 158 anos de crescimento e sucesso. A Fannie Mae e o Freddie Mac, debilitados, sucumbiram ao conservadorismo do governo. A Merrill Lynch, símbolo do mercado americano otimista, entregou-se a uma aquisição de controle. O Washington Mutual cambaleou, prestes a se tornar o maior fracasso de um banco comercial da história. O governo americano embarcou na mais extensa aquisição de ativos privados em mais de sete décadas em uma tentativa frenética de impedir uma segunda Grande Depressão.
Devo esclarecer que este texto não é sobre o pânico financeiro de 2008 em Wall Street, nem tem nada a dizer sobre como reparar os mecanismos avariados dos mercados de capital. As origens desta obra remontam a mais de três anos, quando fiquei curioso para descobrir por que as maiores empresas da história, inclusive alguns antes excelentes empreendimentos que pesquisamos para escrever Good to Great: Empresas feitas para vencer e Feitas para durarcaíram. A meta deste livro é oferecer uma visão fundamentada em pesquisas sobre como o declínio pode ocorrer, mesmo para empresas aparentemente invencíveis, de forma que os líderes possam ter mais chances de evitar seu trágico destino.
Esta obra também não se compraz com a morte de empresas antes poderosas, mas tem o objetivo de ver o que podemos aprender e aplicar à nossa própria situação. Ao entenderem os cinco estágios do declínio que discutiremos aqui, os líderes podem reduzir substancialmente as chances de cair até o fundo do poço, despencando de icônicos a irrelevantes. O declínio pode ser evitado. As sementes do declínio podem ser eliminadas antes de gerar frutos. E, enquanto você não despencar até o quinto estágio, o declínio pode ser revertido. Os poderosos podem cair, mas muitas vezes voltam a se levantar.
Jim Collins
Boulder, Colorado

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Empreendedores buscam liberdade em micronegócios

Por Filipe Oliveira

Ao contrário do que se pode imaginar pelo título, "A Startup de $ 100"(ed. Saraiva) não fala de empreendedores que querem virar o próximo Google ou Facebook.

O autor escapa das teorias tradicionais para a construção de empresas de internet. Sua preocupação está na conquista da liberdade, em que a pessoa consegue viver daquilo que gosta, de preferência trabalhando de qualquer lugar do mundo e com pouco estresse.

Após uma análise de milhares de histórias de "empreendedores não convencionais", Chris Guillebeau conta que conseguiu encontrar 1.500 exemplos de empreendedores que satisfaziam a maior parte dos pontos que o interessavam.

No seu radar estavam empreendedores que realizavam atividades pelas quais são apaixonados, investiram menos de US$ 1.000 de capital inicial e conseguiram uma renda mínima de pelo menos US$ 50 mil por ano. Também priorizou negócios que não exigissem conhecimentos específicos.

Editoria de Arte/Folhapress
Daí se chega aos 50 micronegócios que são apresentados durante os capítulos e ilustram as lições que o autor quer passar.

INESPERADOS

Entre os "empreendedores inesperados", que descobriram seus negócios ao perder um emprego, se cansar do que faziam ou simplesmente por encontrar um novo modo de chegar ao mercado, estão os designers Jen Adrion e Omarque Noory. A dupla iniciou um negócio de mapas customizados após fazer um de Nova York para usar em uma viagem. Despretensiosamente, colocaram alguns à venda na internet e fizeram sucesso.

Outra história prosaica exemplifica a visão do autor sobre o empreendedorismo como libertação: Kelly Newsome, que passou a empreender dando aulas de ioga na casa de executivas atarefadas. Sua renda passou a ser de um quarto do que recebia em um escritório de advocacia, mas com mais satisfação pessoal.

As considerações de Guillebeau são feitas em linguagem direta sem jargões do ramo dos negócios. Em um dos seus ensinamentos, ele compara a possibilidade de encontrar possibilidades a um restaurante em que o chef chama os clientes para ajudar a preparar o prato na cozinha. Ao constatar que a experiência seria desagradável (a menos que a pessoa tivesse ido lá para cozinhar), conclui que o bom negócio não é aquele que ensina a pescar, mas o que dá o peixe.

PASSO A PASSO

O livro também traz momentos de sistematização. Um exemplo é quando mostra como fazer marketing gastando pouco ou aumentar a receita do negócio a partir da cobrança recorrente (receber mensalmente por um serviço, em vez de fazer uma única venda).

Ao falar sobre como se deve fazer um lançamento de produto, por exemplo, o autor enumera 39 passos que ajudam a manter a expectativa antes, controlar o que acontece durante e manter o sucesso depois.

Outra passagem memorável, pela ironia de um autor que busca sempre a liberdade, está na descrição do modelo de franquia: "Siga rigorosamente as instruções operacionais impostas pela empresa, sem exceções. Se o negócio tiver sucesso, você ganhará em média US$ 47 mil anuais depois de passar três anos apertando o cinto e trabalhando as mesmas 50 horas por semana que passaria em um emprego formal com muito menos estresse".

O livro é francamente otimista sobre o empreendedorismo. Mesmo com algumas ressalvas, como quando diz que nem tudo o que gostamos de fazer corresponde a algo que as pessoas estão dispostas a nos pagar. Mesmo assim, há um exagero em especial no "Manifesto" em prol da liberdade que abre o livro.

Se a pesquisa foi rica em encontrar exemplos de sucesso com baixo investimento, por outro lado pouco se detém sobre os riscos do negócio próprio, fato relevante ao levar em conta que uma em cada quatro empresas fecham em menos de dois anos no Brasil.

AUTOR Chris Guillebeau

EDITORA Saraiva
QUANTO R$ 39,90 (240 págs.)

AVALIAÇÃO bom

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sorteio de livros: Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes

Toda quinzena escolho um livro da minha biblioteca e faço um sorteio através da fanpage Ideas Largas no facebook.


Desta vez será um clássico que permanece sempre atual. O sorteio será no dia 15/07/13.  Participe clicando neste link!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Crise deriva de má compreensão sobre a natureza do dinheiro, diz economista

Por Martin Sandbu

O que é o dinheiro? Mesmo economistas capazes de usar sem constrangimento expressões técnicas como "transações repo", "obrigações caucionadas de dívida" e "relaxamento quantitativo" podem enfrentar dificuldades para oferecer uma resposta.

O economista Felix Martin, em "Money: The Unauthorized Biography" (Dinheiro: a Biografia não Autorizada, ed. Vintage Digital), dá o seu relato sobre esse assunto.

Para ele, o dinheiro é para nós aquilo que a água é para os peixes -ocupa posição tão central em nossa existência que compreendê-lo requer certo esforço conceitual.

A primeira coisa a apreciar aqui é que o dinheiro envolve mais que moedas e cédulas.

Martin acredita que uma concepção errônea quanto à natureza do dinheiro --a de que se trata apenas de uma mercadoria utilizada para executar transações e pode, portanto, ser tratada como qualquer outro bem de mercado-- é a raiz da negligência das autoridades econômicas com relação a bolhas e de sua condução inapropriada das crises financeiras.

O livro começa com duas ilustrações exóticas do argumento de Martin.

A primeira é a ilha de Yap, no Oceano Pacífico, cuja moeda era o fei, grandes rodas de pedra com até 3,6 metros de diâmetro.

Elas raramente eram movidas para facilitar transações --mais ou menos como acontece com as modernas contas bancárias eletrônicas, as fei são representações simbólicas de valor, e podem mudar de dono sem mudar de mãos.

A segunda é a poesia homérica. A Ilíada e a Odisseia, escreve Martin, são "uma descrição vívida e detalhada da era imediatamente anterior à invenção do dinheiro".

Os dois exemplos servem para ajudar a solapar um dos alvos principais do livro: a ideia convencional de que o dinheiro foi inventado para superar as dificuldades práticas do comércio por escambo.

As economias de subsistência dos épicos homéricos não dispõem de dinheiro mas tampouco se envolvem em escambos -são transacionados bens saqueados em guerras, ocorrem trocas de presentes e rituais de compartilhamento em forma de sacrifícios.

Já o caso de Yap mostra, de seu lado, que o dinheiro não precisa ser trocado fisicamente pelos bens comerciados para que desempenhe um papel no comércio.

DIREITOS

Para Martin, o dinheiro é assim tão simples --e assim tão difícil de definir.

Consiste de obrigações desincorporadas de relações sociais específicas, ou seja, de direitos que podem ser livremente transferidos a terceiros. Isso serve mais obviamente ao meio circulante legal, ou seja, às moedas garantidas por um soberano.

Mas formas privadas --vales, sistemas privados de compensação-- também funcionam como dinheiro, na medida em que possam satisfazer a esses critérios.

Como Martin mostra, a história do dinheiro é uma narrativa da luta dos governantes contra os usuários e provedores privados de crédito -acima de tudo, os banqueiros. De fato, a história de nossa atual crise é a do crédito privado rompendo seus grilhões.

Martin estudou os clássicos, além de economia, e seu livro está tão repleto de alusões literárias e históricas que a história quase se conta sem ajuda. Mas há pouco de original na definição do autor para o dinheiro como crédito transferível, em lugar de peças de metal.

Seu relato das dúvidas sociais e filosóficas sobre a sociedade de mercado, aliás, deve muito ao livro "As Paixões e os Interesses" (1977), de Albert Hirschman, publicado no Brasil pela Record.

Não o afirmo como crítica, porque o trabalho de Martin é uma síntese soberba que merece ser lida nem que apenas por seu poder de sintetizar, mas a análise talvez pareça limitada para os leitores que já conhecem o tema.

É simplista sugerir que a economia como profissão não anteviu a crise (o que é verdade) por se ver o dinheiro como uma simples mercadoria de troca.

Mas se a tese de Martin tropeça ocasionalmente, sua narrativa jamais o faz. Como introdução lúcida e pitoresca aos 3.000 anos de nossa história monetária, o livro vale seu peso em fei.

Money: The Unauthorized Biography
AUTOR Felix Martin

EDITORA Vintage Digital
QUANTO R$ 69,95 (formato Kindle; 336 págs)

MARTIN SANDBU é editorialista econômico do "Financial Times"
Tradução de PAULO MIGLIACCI

domingo, 23 de junho de 2013

Ex-negociador de reféns ensina empresário a superar conflitos

Negociadores de reféns se veem diante das disputas mais violentas imagináveis
O conflito e a violência não acontecem apenas nas ruas das grandes cidades. De maneira mais sutil, mas igualmente agressiva, a ferocidade é uma marca do mundo dos negócios. Para o psicólogo George Kohlrieser, ex-negociador de reféns, o número de situações em que empresários de sentem atacados e forçados a reagir é frequente.
"Essas situações podem levar a uma escalada de hostilidades e uma sensação de impotência e nos sentirmos como se fôssemos reféns", escreve Kohlrieser em "Refém na Mesa de Negociações".
No livro, ele defende o enfrentamento de situações de conflito e que é necessário formar laços afetivos até mesmo com o "inimigo". Para isso, mostra os fatores que impedem a resolução de problemas com técnicas psicológicas usadas em situações de risco.
O autor usa exemplos comparáveis à síndrome de Estocolmo --termo que se refere ao sentimento de admiração do refém por seu sequestrador-- e emoções comparáveis ao luto que são vividas dentro de grandes empresas.
Como referencial teórico, além da psicologia, Kohlrieser usa descobertas e conhecimentos da neurociência para analisar o comportamento corporativo.
"Transformar os instintos competitivos de um indivíduo em um impulso em direção a uma meta comum pode trazer à tona o melhor de todas as equipes", conta.
Psicólogo clínico e organizacional, Kohlrieser é professor de liderança e comportamento organizacional na escola de negócios suíça IMD (International Institute for Management Development) e especialista em resolução de conflitos.
*

Autor: George Kohlrieser
Editora: Nossa Cultura

Páginas: 292

domingo, 9 de junho de 2013

Saber se vender é essencial. Todos vendem algo!

Por Lucas Rossi

escritor americano Daniel Pink, de 50 anos, lançou, no fim de 2012, seu quinto livro, To Sell Is Human: The Surprising Truth about Moving Others (algo como "Vender é humano: a intrigante verdade sobre como mover os outros"), que será lançado no Brasil em novembro pela editora Leya.

Uma pesquisa de Daniel feita para o livro mostrou que 40% do tempo que as pessoas passam no trabalho é usado com vendas. "No dia a dia, precisamos persuadir, influenciar e convencer os outros", diz ele.

Isso é importante para seu sucesso, senão você não conclui projetos, não consegue transitar na corporação e não tem as pessoas a seu lado. Saber se vender pode fazer você crescer e conseguir chegar aonde sempre quis. E não tem problema nenhum nisso.

VOCÊ S/A - Por que ser vendedor passou a ser essencial?

Daniel Pink -  Passamos a vender constantemente. Se você olhar ao redor, todos vendem algo. Estamos vendendo nossa imagem para os outros comprarem.

VOCÊ S/A - Qual a maneira mais efetiva de vender?

Daniel Pink - Antes de tudo, é essencial sempre ouvir o que os outros querem e entender qual oportunidade você tem. Só assim saberá como fazer a melhor oferta. Outro ponto importante é dizer “sim e”. Na maioria das vezes falamos “sim, mas”. Ao falar “sim e” você agrega, em vez de fazer um contraponto.

Fica mais fácil convencer. Por último, é importante fazer o outro se sentir bem. Se a pessoa estiver confortável, comprará de você.

VOCÊ S/A - É comum no mundo corporativo as pessoas se promoverem. Como vendedores de nós mesmos, é melhor ser alguém que resolve ou que encontra problemas?

Daniel Pink - Sem dúvida é melhor ser aquele que encontra. Se seu comprador já conhece o problema, ele acredita que sabe como resolvê-lo. Você não conseguirá vender nada. Se você for alguém que acha problemas, saberá como oferecer soluções.

VOCÊ S/A - Quais são as chaves para ser um vendedor de sucesso?

Daniel Pink - Antes de mais nada, estar ligado para entender o que o outro quer. Saber identificar e solucionar os problemas. Você precisa ajudar a pessoa a melhorar a vida dela. Se souber conduzir esse processo de forma tranquila, vai vender e ter bons resultados. O vendedor deve procurar entrar em sintonia com o comprador e entender de que ele precisa.

E precisa saber transitar. Com isso você consegue estar perto de pessoas capazes de ajudá-lo a entregar a solução de forma melhor. E a última chave é a clareza. Encontrar o problema certo para resolver. Saber fazer as perguntas certas para ter as soluções ideais é o melhor caminho.

VOCÊ S/A - Em cargos de chefia, muda a forma como devemos vender?

Daniel Pink - Em geral os chefes não são bons vendedores. Eles não sabem vender o quanto devem e precisam para ter sucesso. Eles apenas forçam as pessoas. Usam o poder e o controle, em vez de influenciar. Não sabem quão efetiva poderia ser a liderança deles e quanto o resultado poderia melhorar se soubessem como vender melhor.

VOCÊ S/A - Os extrovertidos vendem melhor?

Daniel Pink - Não necessariamente. As pesquisas mostram que isso é um mito. Os extrovertidos são os mais contratados, têm um ótimo desempenho e são os que recebem mais promoções. Mas não são, necessariamente, os melhores vendedores. Assim como os introvertidos também não são.

A competência de vender não tem a ver com ser comunicativo ou não. Para ser um bom vendedor é preciso saber escutar, saber a hora de ficar em silêncio, de ser estratégico e de entender o momento ideal­ para propor a venda. Só assim uma venda tem sucesso.

VOCÊ S/A - A internet transformou a dinâmica de compra e venda. Isso mudou a forma como nos vendemos para os outros?

Daniel Pink - Certamente. Muitas pessoas passaram a vender pela internet nos últimos anos. Gente que não era empreendedora passou a ganhar dinheiro na rede. Isso fez com que o assunto ficasse mais frequente na vida de todos. Mas o mais importante é que a internet ajudou na difusão da informação.

Hoje todos têm acesso. Vender nesse contexto passou a ser uma tarefa mais complicada. O comprador pode comparar, ler as opiniões de outras pessoas. A tomada de decisão nesse cenário passou a ter mais senões, tanto na compra na internet como no mundo offline.

VOCÊ S/A - O professor e escritor indiano Ram Charan escreveu um livro, cinco anos atrás, chamado O Que o Cliente Quer Que Você Saiba (Campus/Elsevier). No livro, que se tornou um best-seller, Ram escreve que não deveríamos apenas deixar nossos clientes satisfeitos, mas ajudá-los a alcançar as metas. O que você acha disso?

Daniel Pink - Não li o livro. Mas entender o negócio de seu cliente é crucial. Atualmente vendemos soluções, não produtos ou serviços. Precisamos ajudar o cliente a atingir suas metas. Ele ficará satisfeito e será leal.